Ferrugem americana

Nos tempos actuais, em que também se resiste, por mim uma resistência vitalícia, a uma transformação forçada, indesejada, ininteligente, arrogante, inaceitável e ilegal de muita da nossa ortografia, com o mais burro e idiota Acordo Ortográfico, inconstitucional mesmo, levando a que nos fique a boca seca e os cabelos em pé, quando se lê um bom texto nos jornais e um bom livro, há por muitos cantos desta Europa e dos Estados Unidos da América cenários, sectores e regiões vastas espelhos de uma decadência que persiste. Zonas e sectores onde outrora houve indústria rentável e prometedora, são hoje cemitérios de glórias passadas. Sabemos todos de alguém que foi vítima destas crises e desta decadência.

“Ferrugem Americana”, de Phillip Meyer, editado pela Bertrand, é um romance sobre esta sociedade decadente em transformação, e sobre a história de uma amizade e do seu valor e valores. Ferrugem é o estado em que se encontra toda uma indústria de aço, nos EUA, e das suas empresas falidas e encerradas. Ferrugem é também o estado em que se encontram as pessoas que por essas terras vivem ou sobrevivem.

É um livro de escrita original e criativa, mas lembra-nos um tanto um Steinbeck, nas suas caracterizações da resistência humana numa sociedade, ou num tempo de uma sociedade, em crise e em estado de angústia. Em tempos de depressão, económica, social e individual, sempre surgem os excessos, as atitudes descompensadas, ou irreflectidas, talvez escapatórias sem saída, para problemas sem resposta ou solução.

Este é um livro recomendável. Apesar do fundo do tema, não se trata de um manifesto político, mas de um Romance ao bom estilo americano, interrogando-se sobre si mesmo, sobre a própria ‘cultura e estilo de vida’ americanos.

Vale bem a pena ler esta quase poesia-negra, com mudanças de estilo narrativo ao longo do livro, consoante o protagonista do capítulo. Originalidade não lhe falta, mas sem cair numa prosa ilegível ou estafante, dessas que dá ataques de asma a quem nunca dela padeceu. Quero dizer, o contrário do que por cá, alguns ‘brilhantes aplaudidos’ de lixo nos vão dando. Isto é Literatura, e não lixo do muito, felizmente restrito, como o que por cá temos.

Numa das opiniões que li, no ‘Goodreads’ (http://www.goodreads.com/), alguém referia não ter entendido algumas ou muitas das frases do autor. Confesso que as procurei, para me incorporar nessa espécie de iliteracia, mas só encontrei boa escrita, poesia, um escritor a seguir em próximas obras.

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A interpretação do crime

Um livro não tem de ser sempre uma obra prima, uma referência na Literatura e na Cultura.

Um dos aspectos que sempre me incomodou na crítica literária convencional, é essa insuportável mania da superioridade intelectual. Durante anos, li críticas literárias no Expresso, como li de Cinema, de Teatro, de Música. Algumas vezes imaginei que provavelmente não teria o crítico lido a mesma obra que eu, ou ouvido a mesma interpretação de uma obra musical.

Invariavelmente, comparava-os, como uma fatalidade do meu triste processo mental, muito aquém dos ditos imensos intelectuais da Crítica, com os jornalistas que nas revistas de automóveis nos deliciam com as maravilhas da indústria automóvel alemã, para no final, eu continuar a desejar ardentemente um modesto automóvel japonês. Evidentemente, sempre desconfiei da fiel crítica a um Volkswagen, ou Audi, como a um livro de Lobo Antunes, ou…qualquer outro que se inserisse nos “intocáveis” do costume, quase sempre de uma determinada ala política. E, inferiormente pensante, me deixava mergulhar num simulacro de depressão, por não me ser possível descortinar a proximidade e a inevitabildade que relaciona preferências políticas com produção literária.

Não sou fã de literaturas a quilo. De Dan Brown’s de praia. Mesmo tendo usado o dito na praia, por ser como uma salada, é fresco e engana a fome, mas deixa muito pouco.

A interpretação do crime

Jed Rubenfeld, um jurista americano (ri-me…ao lembrar-me da expressão castelhana “estado-unidense”, um fútil parêntese), elaborou uma história animada, interessante, leve, recheada de inverosímeis acontecimentos e coincidências temporais, misturando a viagem de Freud aos Estados Unidos, com alguma filosofia sobre a psicologia do mesmo, e uma história policial a correr no centro do enredo.

Não me pareceu literatura superior. Mas não me ofendeu a parca cultura, nem as pretensões escassamente literárias. Gostei, porque o li em transportes públicos, distraindo-me de odores, poluição sonora ao final de dias stressantes, diverti-me, numa palavra. E não entra pelo disparate de um milionário Dan Brown. Já desisti de me questionar porque são milionários os escritores mais fracos. Porque não é possível identificar a qualidade, pela maioria das pessoas. Ou porque para ser inquestionavelmente superior é quase forçoso ser-se impopular.

A Interpretação do Crime não é um mau livro. Não é um grande livro, nem um livro grande. É um livro bem temperado, com equilíbrio de condimentos, cozedura adequada e mata alguma fome de curiosidade e de imersão na ficção, o mesmo é dizer, de fuga a uma realidade de que nem queremos ouvir palavra. Se Rubenfeld se aventurar de novo, sou bem capaz de me aventurar também, e lê-lo. Não lhe resta inteligência e mestria, como não lhe sobre pedantismo como tantos de que nem penso ler uma só linha e são intocáveis da nossa praça. Fazem-me sono e nada me acrescentam, juro. Um mero jogo de palavras, sem qualquer história (pode fazer-se uma sinfonia sem desenvolvimento do tema, não me parece, mas há quem publique letras nessa insistência, nada desenvolvem, nada nos deixam, após a última página) ou uma mania saloia por um estilo de desobediência aos cânones da gramática, apenas me desiludem, nem chegam a irritar-me. Passo melhores horas com um estilo como o deste autor, do que o de alguém que começa numa descrição de uma janela falante, ou de um louco que urina na sopa, ou da pesporrência de ideias políticas gastas e desgastantes, dos sempre resistentes anti-fascistas. Esta novena pela luta anti-fascista já me encheu e transbordou a paciência, mas ainda dá prémios literários. Uma maçada.

Acho que pode ler, quem gostar de uma história bem contada, algo policial, algo psico-thriller.

A escrita a nu

Muitos de nós, ou todos nós, pomos um dia, a alguém, nem que apenas ao psiquiatra, a nossa vida a nu. Quando o fazemos, vivemos momentos de profunda emoção, porque nos despimos de quase tudo. Mas dizer, não é escrever.

Imaginemo-nos, por um instante, na pele de um escritor, e que nos metemos a pôr em palavras escritas grande parte da nossa vida.

Podemos fazê-lo num pequeno texto, normalmente privado apenas, ou publicá-lo num blogue pessoal. Mas a extensão, reduzida, nos limitará sempre a profundidade. Se o fizermos num caderno pessoal, ou em vários, tentando contar, para nós mesmos, ou deixar para a posteridade, dar-nos-emos conta, muito provavelmente, da dificuldade, talvez da intensa emoção, ou comoção até.

Mas publicar em livro. Publicar a verdade, embora essa possa estar decorada com ficção, embora com intentos de tornar uma nossa história assim mais editável, não será tarefa nada fácil e decisão muito complicada de assumir.

Mas assim o fez Knausgard. O primeiro volume desta autobiografia, ou deste romance autobiográfico, já nos dá bem a medida da força deste homem, como escritor e como ser humano. Os detalhes da descrição da casa da avó, como o pai dela a deixou, ao falecer, depois de lá ter vivido uns anos coma sua mãe de oitenta, são duros e difíceis de entender. De aceitar. O que lemos passou-se na Noruega, não num país qualquer de terceiro mundo, num bairro degradado. E Knausgard expõe-nos assim. E imagino o que lhe deve ter custado.

Esta obra, monumental de mais de seis mil páginas em seis volumes (um jantar com amigos pode custar ao leitor umas cem páginas) pode ter aberto um novo capítulo no mundo da escrita e dos escritores.

Lemos algo de muito profundo e já nem importa, a dada altura, a realidade ou alguma ficção que não se consiga perceber do vamos lendo. Vem de alguém que só pode viver muito intensamente. Que se desloca pela vida com um batimento muito intenso, um olhar muito observador e uma memória prodigiosa. Mas é na escrita, de uma beleza por vezes dolorosa, que está o encanto desta obra.

Ler o primeiro volume, faz-nos ansiar pela publicação do segundo. Que, em Portugal, como tudo o mais, tarda sempre demasiado. Porque tudo tarda em Portugal, país de muitas queixas e de muito poucas realizações. Se leio um autor português, leio demasiada dissimulação, como tudo é, afinal, por cá. Ou leio um exercício de escrita, um jogo de palavras de um espertinho, e quase nunca uma história bem contada. Muito raramente, uma boa história. As excepções são raras. E logo julgadas como demasiado comerciais. Até porque comercial, em Portugal, é algo deplorável, parece. Nós que nada produzimos e apenas importamos e vendemos, temos uma análise negativa e sórdida sobre o que seja comercial. Como se desejássemos que tudo nos chegasse de um Estado providencial. Nas nossas vidas pode até passar-se muito mais do que na de Knausgard, neste momento com quarenta e sete anos. A meio da vida e muito mais que uma vida bem longa para nos contar.

Se no trajecto de uma vida ainda pela metade se tem tanto para contar e da forma como faz, o que nos reserva este escritor que vem das terras do silêncio?

Esperemos pela publicação dos restantes volumes de “A minha luta”, que recomendo a todos os que queiram pesar as suas próprias vidas e perceber quanta coisa que nos acontece pode ser bem relativo.

Boa leitura!

O Capital no Século XXI

O Capital no século XXI, Piketty

Thomas Piketty conseguiu uma bela proeza com a publicação do seu “O Capital no século XXI”. Um sucesso literário impressionante, para um livro sobre economia. E um título que não deixa margem para qualquer dúvida, pretendeu “agarrar o touro pelos cornos” ao associar a sua obra ao “Capital” de Karl Marx. Mas é bem mais do que isso. Deve ter escolhido bem o título da sua obra, de profunda análise das economias, por um período muito alargado, de uma forma inovadora, pelo menos para divulgação em grandes meios, e fora do ambiente científico puro. Imagino que muitos dos nossos políticos, os que “gostam” de se dizer de “direita”, por considerarem (exagero, não se trata de consideração alguma, pois isso pressuporia uma reflexão que, na verdade, nem chega a existir numas certas cabeças, pouco, muito pouco pensantes) que ser dessa área política (que também pretendem seja social, o que os transforma em quase ridículos), é uma coisa tipo de “bom tom”, fica bem, parece bem. Por mais incrível que pareça ainda há por aí demasiada gente que anda de queixo levantado, não por um orgulho em serem intelectualmente superiores, e assim de destacarem numa sociedade de anti-intelectuais ou seres pensantes, mas apenas porque julgam ganhar estatuto, que de outra forma não têm mérito para tal, como se o queixo e nariz acima a obedecer a uma linha oblíqua e não horizontal, lhes elevasse o cérebro, na mesma proporção.

Considerações à parte, mas irresistíveis, pelo que calculo de complexos de estúpida e apenas suposta superioridade, a obra de Piketty merece mesmo uma leitura. Pelo menos por quem se preocupe em entender o que nos tem acontecido desde o Século XIX, ou mesmo desde a Revolução Francesa e, mais tarde, Revolução Industrial. E, pelo Século XX, o esforço de entendimento ainda terá de ser maior, para andarmos hoje, no início deste XXI ainda a tentar perceber o que se passa. O que se passa com a dinâmica da concentração do Capital, a acumulação de riqueza, por uma percentagem cada vez mais pequena, face à criação de riqueza pelo mundo, com as consequentes desigualdades, de vária natureza, ordem e grandeza, hoje o problema que vai tornando insolúveis os outros todos: os problemas de solução para o limitado crescimento de economias estagnadas, e do progressivo empobrecimento das populações.

Uma obra destas, independentemente de ter sido escrita por um autor, economista e investigador, associado a uma “esquerda” de elite, francesa, europeia, deve ser lida com o desprendimento que alguém, também intelectualmente livre se achar e conseguir. Ficam livres de o fazer todos os que se prendem e cultivam os complexos que o nariz erguido lhes dá. Uns tristes que um dia poderão sentir o peso da sua leviana e ligeira irresponsabilidade. Os assuntos da distribuição da riqueza, da sua excessiva concentração, da criação e acentuação de desigualdades, e do progressivo empobrecimento de populações são demasiado sérios e prendem-se com as barreiras ao real desenvolvimento das sociedades e das economias.

Joseph Anton

Salman Rushdie foi “condenado à morte” por essa figura tenebrosa de que muitos nos lembramos, aiatola Khomeini, no dia dos namorados, 14 de Fevereiro de 1989. A Fatwa …

Começou uma nova vida nesse dia, saltando de casa em casa, deteriorando a vida familiar, sentindo-se constrangido intelectual e fisicamente. Mas não se deixando ficar refém de um medo que lhe amputasse a actividade criativa. Hoje, temos nele uma referência autêntica de luta por uma vida como homem livre. Uma luta que nada tem a ver com essas tantas vezes falsas resistências anti -fascistas, fabricadas, como alicerces de currículo político de gente triste e medíocre. Gente que não incluo no grupo dos genuínos resistentes das ditaduras. Mas para uns, só são resistentes e lutadores,e só têm mérito de respeito os lutadores anti-fascistas.

Rushdie pertence a uma classe humana à parte. Um privilegiado, com uma inteligência criativa superior. Um monstro das letras mundiais. E um exemplo de lutador pela Liberdade de expressão.

Hoje, relembro-o, por estarmos a viver se novo este medo do terror que o terror nos quer infligir.

Recomendo o último livro dele, publicado em português, para o qual escolheu o seu nome de refugiado do terror, inspirado em dois escritores que Rushdie admira, Joseph Conrad e Anton Tchekov, “Joseph Anton”.

Sobre a indiscutível qualidade, nem vale a pena discorrer, Rushdie vale por si e as suas obras, por ele. O livro é uma homenagem aos amantes da Liberdade, que só existe numa minoria dos países deste mundo. Que a loucura pseudo-religiosa pretendeu por em causa.

Leia-se Rushdie, vale a pena tentar perceber.

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Karl Ove Knausgaard: A minha luta

Knausgaard segue a sua escrita num ritmo coordenado pelo do seu pensamento. Como se se sentisse cada palavra a ser produzida, ao ritmo da passada da sua vida. Pulsante. A sua escrita reflecte um pensamento, e muito sentimento, eminentemente pessoal. A sermos crentes, e ele nos levará a essa fé, estou certo, é impressionante a memória que reservou dos seus dias de jovem e criança. Não de impressões gerais e de uma nebulosa recordação, mas de locais, objectos, expressões das pessoas, e dos próprios pensamentos, trinta anos após, ou antes.

Mas é um prazer ler uma escrita eloquente e rica. Um pensamento culto e que parece vacilar entre lucidez e dúvida filosófica. Sentimos-nos a passear pelo tempo. E nos espaços a que os seus passos nos conduzem. Passamos pelas sombras e luzes de Karl Ove, quase entrando na sua memória, um monumento à mente humana.

Este género literário nunca me havia cativado. Prefiro viajar entre ensaios e histórias ficcionadas. A realidade, nua, da vida de um escritor nunca me agarrou. Mas desta vez, rendo-me a esta qualidade superior, liderado por uma inteligência descritiva incomparável.

Vou seguindo lentamente, entre outras leituras várias, desfrutando. Acompanhando cada pisar de cada folha no passeio de uma rua, cada pensamento que salta a esse ritmo, doloroso e realista, mas corajoso.

Karl Ove Knausgaard: o tempo requer resistência

“A Minha Luta” de Karl Ove Knausgaard (Editora Relógio D’Água, Dezembro 2014). Um Norueguês que se meteu a escrever uma autobiografia simplesmente fantástica, inteligente, com uma qualidade literária, uma linguagem simples mas filosófica profunda e arrepiante. Uma Obra grandiosa, à moda de Proust e da sua gigantesca “Em busca do Tempo Perdido” (que achei entediante, e só li uma pequena parte…confesso a minha limitação).

Knausgaard Vol1

Knausgaard conseguirá, no que a mim me toca, agarrar-me a uma autobiografia, género que não costumo apreciar. A sua escrita é exactamente “o meu género”, confessadamente intimista, com imensas ideias novas sobre a percepção do mundo, seu e dos outros. Com um fundo de filosofia pessoal profundo e tocante. Nada é ligeiro nesta obra que apenas ontem iniciei e já não quero libertar dos meus dias. Publicou em 2009 o primeiro volume, publicámos por cá…cinco anos depois, após todos os outros o terem feito. Será que as nossas editoras têm noção de que certas obras nos fazem falta e parece terem-no feito toda a vida? Veremos o que mais nos traz Karl Ove, nos próximos volumes (serão seis, cerca de seis mil páginas, segundo anunciado? E quanto tempo nos deixarão suspensos pelo segundo volume e pelos restantes? Espanha publica, parece, a um ritmo de um volume a cada dois anos. Alemanha, um por ano, Itália concentrou mais de uma publicação num só ano. Suécia, igualmente).

Irei dando conta do que leio, antes de terminar, mas exactamente ao correr da leitura. Espero.

Desde já, as primeiras páginas.

“Lemos, aprendemos, experimentamos, corrigimos. Então, um dia, chegamos ao ponto em que todas as distâncias necessárias foram determinadas, todos os sistemas necessários foram estabelecidos. É aí que o tempo começa a acelerar. Já não encontra qualquer obstáculo, está tudo determinado, o tempo passa rapidamente pelas nossas vidas, os dias sucedem-se num piscar de olhos, e, antes que nos apercebamos do que está a acontecer, temos quarenta, cinquenta, sessentas anos…O sentido requer conteúdo, o conteúdo requer tempo, o tempo requer resistência.”

Algo mais impressionantemente próximo da ideia do tempo e da distância que uma análise requer, dos nossos passados, seria difícil conseguir. E algo mais belo, impossível.

Sentimentos sobre um livro, cheio deles

Os livros pulsam em boa parte ao ritmo do que que sente, e não apenas pensa, o seu autor. É, por isso mesmo, extremamente difícil, certamente injusto, elaborar uma análise sobre um livro, de um autor muito desconhecido. Não o/a conhecemos pessoalmente, nada, ou quase, sabemos do que vive, pensa e sente. Mas sabemos um tanto pelo que escreveu.

Um livro que fala, que nos denota que sente, é uma obra difícil e perigosa de nos pormos a “inventar” considerações. Mas, como tudo, somos pessoas, e pessoas, gostam de opinar, para dentro ou para fora.

Nesta obra perpassam, por quase todas as páginas, opiniões sobre as personagens, sentimentos olhados pela autora, sobre as “pessoas” que ela mesma criou. Um direito de quem faz de Deus, como todo o escritor tem de fazer. Uma prerrogativa que a todos assiste no momento de criar, escrevendo. Assim, dei por mim, em diversos momentos, a pensar sobre a consistência de uma certa forma de pensar das personagens, e da sua forma de agir, perante a época em que “viveram”. Desde já, é uma obra algo cinematográfica, com facilidade nos mostrando cenários e movimentos ao logo dos mesmos, das suas personagens. Vemos András, Klara, Ben Yakov, Ilana…e os lugares por onde andam, nesta história, enquadradas, ou nem tanto, nos tempos que antecedem a Segunda Guerra Mundial. Mas por mais de um momento me pareceram formas de ver a sua própria vida, e dos outros, pelos personagens, pouco consistente com a época. As relações amorosas de András e Klara, e a análise por eles feita sobre as mesmas, o passado de Klara, o futuro comum que perspectivam. O que Ben Yakov vai dizendo, primeiro sobre Ilana, depois o seu contrário, sobre Ilana, à face desses tempos de há mais de setenta anos. Julgo ter visto uma…visão do mundo da década de trinta do século XX, pelos olhos de Julie Orringer, com os olhos de quem vive o mundo…de hoje.

Aqui reside um desafio para quem lê, e um bom móbil para discutir uma obra entre amigos. Estas diferenças de ponto de vista, sobre quem teve e tem os seus próprios, sobre o que criou. Pode ser injusto, mas é o que é, com as falhas humanas que, no fundo, nos dão “graça”. Julgo ter visto um dos pontos fracos desta obra interessante, onde nos é dado um mundo a dois níveis, o pessoal e o global que os rodeia e onde tentam lutar e ver que lugar podem ter.

Desafio os meus amigos a lerem este livro. É fácil ter amores por uma obra assim, ou desamores. Mas o meu desafio é outro, é uma espécie de jogo, que há muito existe na tradição anglo-saxonica, com os seus clubes de leitura. Um hobby estimulante, parece-me.

Um livro é uma aventura, pequenina, ou gigantesca, dependendo do que desencadeia em nós de estímulo mental, intelectual e cultural. Um livro é um pretexto para se recriarem temas de conversa. Confesso o meu sonho de um dia poder encontrar uma espécie de clube da leitura, mesmo que online.

Estas provocações, são o que estes comentários constituem, afinal, podem servir esse objectivo, ou apenas um auto-estímulo, para escalpelizar uma obra de algum ou muito valor. São sempre falíveis, e gosto!

Embora lá, ler esta obra que até foi premiada com o Orange, em 2011. Tentemos todos perceber porque o foi, como foi entendida que se destacava de outras tantas a concurso. E, mais, o que nos diz a mesma, sobre esses tempos de há setenta anos, quando a Europa enlouqueceu, o que me parece começar agora a repetir-se.

A traição de Munique

Outubro de 1938 (um ano antes da invasão da Polónia, que marcou o início da Segunda Guerra Mundial), Hitler invadiu a Sudetenland, após a conferência de Munique, na qual participaram França, Inglaterra, Alemanha e Itália, tidas como as potências europeias que contavam. A Checoslováquia, cuja região limítrofe da Morávia e Boémia eram o assunto da reunião, não foi convidada. Ao acordo de Munique, os checos chamaram Traição de Munique, ou Munich Diktat.

Hitler acordou (impôs e França e Inglaterra aceitaram, Itália anuía sempre a Hitler) que tomaria posição na Boémia, de cujas franjas fronteiriças apelidava de Sudetenland, e de que reclamava a “maioria” de falantes de alemão, razão apontada para invasão e (imagine-se coisa semelhante ao dia de hoje) abandono total de todos os bens pelos habitantes eslovacos, até à mais insignificante espiga de cereal, incluindo tudo o mais. Casa, e seus bens, alimentos e terras. A tomada de posição fora inicialmente uma espécie de colonização não militar, para em poucos meses passar a ocupação total.

Chamberlain e Deladier ripostaram nas reuniões precedentes que eram inaceitáveis as reivindicações de Hitler, contra uma nação soberana. Mas a cada reunião, recuavam, aceitavam as crescentes imposições de Hitler e regressavam ao seu país, de cabeça…erguida. Quando a reunião de Munique terminou, os líderes de França e Inglaterra regressaram exultantes, certos de que com a sua cedência, teriam obtido garantias de paz.

Nesses tempos, nenhuma nação estava preparada para a Guerra, nem económica, nem militarmente. Mas a pressão de Hitler era interna e externa, os recursos necessários obtidos por tudo o que extorquia aos judeus, e a cada região dos países que ia invadindo. Uma política imperialista que não era nova, que já a História testemunhara, com todos os grandes imperadores que sabemos. Mesmo a perseguição aos judeus, que sabemos ter-se iniciado por volta do ano 1000. E desenvolvido, doutrinariamente, com Espanha e os Reis católicos, Fernando e Isabel, e com Portugal, com Dom Manuel I. Hitler nada inventava, nada de bom. A História repetia-se, com novos autores e em distintos cenários.

O livro de Orringer retrata bem este episódio, a ansiedade deste ano antes da Guerra, as crenças e descrença no desfecho dos acontecimentos que todos sabemos.

Em Paris e Londres festejou-se nas ruas o Acordo de Munique. Os europeus estavam crentes na paz e exultavam.

Aconteceu há setenta anos, numa época em que os homens não eram assim tão diferentes dos que hoje vemos na vida pública. A mesma arrogância de um país, o mesmo de hoje, e de um outro, eterna ameaça e arrogância (Rússia, URSS à época), e eterno vencido.

Hoje há outros níveis de segurança e um tanto mais de intervenção social. Mas a ascensão de Hitler deu-se no país, à época e hoje, onde a informação, a cultura e a discussão da vida pública era um dado adquirido e uma força em si mesma. Com o beneplácito de um povo culto e participativo.

A Ponte Invisivel, de Julie Orringer

A Ponte Invisível, de Julie Norringer, Civilização Editora, 2011.

A Ponte Invisível

Paris dois anos antes da Segunda Guerra Mundial, 1937. András, um jovem húngaro que não conseguira entrar numa Universidade em Budapeste, devido ao ambiente anti-semita que se estava a gerar pela Europa, consequência da loucura e política ameaçadora de Hitler, conhece Claire (Klara). Gera-se um romance entre ambos, com todos os ingredientes que hoje sabemos potenciais em qualquer relação onde não se julguem ver os ingredientes “perfeitos” e pressupostos expectáveis. Contratempos entre os dois, uma quase trágica e impossível relação que se vai viabilizando, numa narrativa que não nos deixa demasiado suspense, talvez por nos pretender direccionar para uma mensagem mais central e maior: a ameaça da Guerra e da tresloucura de Hitler e de uma Alemanha, reincidente nessa suposta, mas irreal, superioridade.

Um tanto romance, com temperos apropriados aos gulosos do drama de amor, um tanto de referência histórica, com pretensões de nos situar no tempo, nesse tempo difícil de Hitler, da perseguição aos judeus, da escassez e fome europeias, do roubo ao futuro, do despedaçar das famílias, ideia que trespassa um tanto pelo livros, com as constantes dúvidas de András e Klara, sobre si e sobre os seus familiares.

Narrativa clara, simples e ligeira, sem grande uso de linguagem que nos solicite mais atenção à forma, mas com uma boa capacidade de nos agarrar à mesma, pelo ritmo da mesma e sequência de acontecimentos, A Ponte Invisível é um recomendável romance, com as ditas referências históricas, que surpreenderão os pouco esclarecidos sobre a Europa sem futuro de há setenta anos, e recordarão a outros que em muitas outras épocas, outros loucos podem tomar rédeas na política e tomar de arrogância territórios que usurparão, num ambiente nem sempre de clara ameaça a gentes mais passivas ou mais optimistas. Não louvaria esta obra pela qualidade da linguagem, pela sua elaboração intelectual, mas antes pela consistência entre tema central e tema acessório, bom enquadramento de tempos, ainda que com algumas falhas, talvez propositadas e referências inerentes aos personagens criados. Leitura agradável e envolvente, um tanto compulsiva, e fonte de alguma informação relevante.

Recomendação: 7/10.

  1. Nota: próximas publicações por inerência do tema, sobre ambiente histórico da época, Segunda Guerra Mundial, relevância relativa entre países europeus, Hungria, Alemanha, França e Inglaterra; Personalidades da época (Hitler, Chamberlain, Daladier, De Gaule, Churchill, Estaline, Ribbentrop, Mussolini, Roosevelt.