A traição de Munique

Outubro de 1938 (um ano antes da invasão da Polónia, que marcou o início da Segunda Guerra Mundial), Hitler invadiu a Sudetenland, após a conferência de Munique, na qual participaram França, Inglaterra, Alemanha e Itália, tidas como as potências europeias que contavam. A Checoslováquia, cuja região limítrofe da Morávia e Boémia eram o assunto da reunião, não foi convidada. Ao acordo de Munique, os checos chamaram Traição de Munique, ou Munich Diktat.

Hitler acordou (impôs e França e Inglaterra aceitaram, Itália anuía sempre a Hitler) que tomaria posição na Boémia, de cujas franjas fronteiriças apelidava de Sudetenland, e de que reclamava a “maioria” de falantes de alemão, razão apontada para invasão e (imagine-se coisa semelhante ao dia de hoje) abandono total de todos os bens pelos habitantes eslovacos, até à mais insignificante espiga de cereal, incluindo tudo o mais. Casa, e seus bens, alimentos e terras. A tomada de posição fora inicialmente uma espécie de colonização não militar, para em poucos meses passar a ocupação total.

Chamberlain e Deladier ripostaram nas reuniões precedentes que eram inaceitáveis as reivindicações de Hitler, contra uma nação soberana. Mas a cada reunião, recuavam, aceitavam as crescentes imposições de Hitler e regressavam ao seu país, de cabeça…erguida. Quando a reunião de Munique terminou, os líderes de França e Inglaterra regressaram exultantes, certos de que com a sua cedência, teriam obtido garantias de paz.

Nesses tempos, nenhuma nação estava preparada para a Guerra, nem económica, nem militarmente. Mas a pressão de Hitler era interna e externa, os recursos necessários obtidos por tudo o que extorquia aos judeus, e a cada região dos países que ia invadindo. Uma política imperialista que não era nova, que já a História testemunhara, com todos os grandes imperadores que sabemos. Mesmo a perseguição aos judeus, que sabemos ter-se iniciado por volta do ano 1000. E desenvolvido, doutrinariamente, com Espanha e os Reis católicos, Fernando e Isabel, e com Portugal, com Dom Manuel I. Hitler nada inventava, nada de bom. A História repetia-se, com novos autores e em distintos cenários.

O livro de Orringer retrata bem este episódio, a ansiedade deste ano antes da Guerra, as crenças e descrença no desfecho dos acontecimentos que todos sabemos.

Em Paris e Londres festejou-se nas ruas o Acordo de Munique. Os europeus estavam crentes na paz e exultavam.

Aconteceu há setenta anos, numa época em que os homens não eram assim tão diferentes dos que hoje vemos na vida pública. A mesma arrogância de um país, o mesmo de hoje, e de um outro, eterna ameaça e arrogância (Rússia, URSS à época), e eterno vencido.

Hoje há outros níveis de segurança e um tanto mais de intervenção social. Mas a ascensão de Hitler deu-se no país, à época e hoje, onde a informação, a cultura e a discussão da vida pública era um dado adquirido e uma força em si mesma. Com o beneplácito de um povo culto e participativo.

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