A escrita a nu

Muitos de nós, ou todos nós, pomos um dia, a alguém, nem que apenas ao psiquiatra, a nossa vida a nu. Quando o fazemos, vivemos momentos de profunda emoção, porque nos despimos de quase tudo. Mas dizer, não é escrever.

Imaginemo-nos, por um instante, na pele de um escritor, e que nos metemos a pôr em palavras escritas grande parte da nossa vida.

Podemos fazê-lo num pequeno texto, normalmente privado apenas, ou publicá-lo num blogue pessoal. Mas a extensão, reduzida, nos limitará sempre a profundidade. Se o fizermos num caderno pessoal, ou em vários, tentando contar, para nós mesmos, ou deixar para a posteridade, dar-nos-emos conta, muito provavelmente, da dificuldade, talvez da intensa emoção, ou comoção até.

Mas publicar em livro. Publicar a verdade, embora essa possa estar decorada com ficção, embora com intentos de tornar uma nossa história assim mais editável, não será tarefa nada fácil e decisão muito complicada de assumir.

Mas assim o fez Knausgard. O primeiro volume desta autobiografia, ou deste romance autobiográfico, já nos dá bem a medida da força deste homem, como escritor e como ser humano. Os detalhes da descrição da casa da avó, como o pai dela a deixou, ao falecer, depois de lá ter vivido uns anos coma sua mãe de oitenta, são duros e difíceis de entender. De aceitar. O que lemos passou-se na Noruega, não num país qualquer de terceiro mundo, num bairro degradado. E Knausgard expõe-nos assim. E imagino o que lhe deve ter custado.

Esta obra, monumental de mais de seis mil páginas em seis volumes (um jantar com amigos pode custar ao leitor umas cem páginas) pode ter aberto um novo capítulo no mundo da escrita e dos escritores.

Lemos algo de muito profundo e já nem importa, a dada altura, a realidade ou alguma ficção que não se consiga perceber do vamos lendo. Vem de alguém que só pode viver muito intensamente. Que se desloca pela vida com um batimento muito intenso, um olhar muito observador e uma memória prodigiosa. Mas é na escrita, de uma beleza por vezes dolorosa, que está o encanto desta obra.

Ler o primeiro volume, faz-nos ansiar pela publicação do segundo. Que, em Portugal, como tudo o mais, tarda sempre demasiado. Porque tudo tarda em Portugal, país de muitas queixas e de muito poucas realizações. Se leio um autor português, leio demasiada dissimulação, como tudo é, afinal, por cá. Ou leio um exercício de escrita, um jogo de palavras de um espertinho, e quase nunca uma história bem contada. Muito raramente, uma boa história. As excepções são raras. E logo julgadas como demasiado comerciais. Até porque comercial, em Portugal, é algo deplorável, parece. Nós que nada produzimos e apenas importamos e vendemos, temos uma análise negativa e sórdida sobre o que seja comercial. Como se desejássemos que tudo nos chegasse de um Estado providencial. Nas nossas vidas pode até passar-se muito mais do que na de Knausgard, neste momento com quarenta e sete anos. A meio da vida e muito mais que uma vida bem longa para nos contar.

Se no trajecto de uma vida ainda pela metade se tem tanto para contar e da forma como faz, o que nos reserva este escritor que vem das terras do silêncio?

Esperemos pela publicação dos restantes volumes de “A minha luta”, que recomendo a todos os que queiram pesar as suas próprias vidas e perceber quanta coisa que nos acontece pode ser bem relativo.

Boa leitura!