A interpretação do crime

Um livro não tem de ser sempre uma obra prima, uma referência na Literatura e na Cultura.

Um dos aspectos que sempre me incomodou na crítica literária convencional, é essa insuportável mania da superioridade intelectual. Durante anos, li críticas literárias no Expresso, como li de Cinema, de Teatro, de Música. Algumas vezes imaginei que provavelmente não teria o crítico lido a mesma obra que eu, ou ouvido a mesma interpretação de uma obra musical.

Invariavelmente, comparava-os, como uma fatalidade do meu triste processo mental, muito aquém dos ditos imensos intelectuais da Crítica, com os jornalistas que nas revistas de automóveis nos deliciam com as maravilhas da indústria automóvel alemã, para no final, eu continuar a desejar ardentemente um modesto automóvel japonês. Evidentemente, sempre desconfiei da fiel crítica a um Volkswagen, ou Audi, como a um livro de Lobo Antunes, ou…qualquer outro que se inserisse nos “intocáveis” do costume, quase sempre de uma determinada ala política. E, inferiormente pensante, me deixava mergulhar num simulacro de depressão, por não me ser possível descortinar a proximidade e a inevitabildade que relaciona preferências políticas com produção literária.

Não sou fã de literaturas a quilo. De Dan Brown’s de praia. Mesmo tendo usado o dito na praia, por ser como uma salada, é fresco e engana a fome, mas deixa muito pouco.

A interpretação do crime

Jed Rubenfeld, um jurista americano (ri-me…ao lembrar-me da expressão castelhana “estado-unidense”, um fútil parêntese), elaborou uma história animada, interessante, leve, recheada de inverosímeis acontecimentos e coincidências temporais, misturando a viagem de Freud aos Estados Unidos, com alguma filosofia sobre a psicologia do mesmo, e uma história policial a correr no centro do enredo.

Não me pareceu literatura superior. Mas não me ofendeu a parca cultura, nem as pretensões escassamente literárias. Gostei, porque o li em transportes públicos, distraindo-me de odores, poluição sonora ao final de dias stressantes, diverti-me, numa palavra. E não entra pelo disparate de um milionário Dan Brown. Já desisti de me questionar porque são milionários os escritores mais fracos. Porque não é possível identificar a qualidade, pela maioria das pessoas. Ou porque para ser inquestionavelmente superior é quase forçoso ser-se impopular.

A Interpretação do Crime não é um mau livro. Não é um grande livro, nem um livro grande. É um livro bem temperado, com equilíbrio de condimentos, cozedura adequada e mata alguma fome de curiosidade e de imersão na ficção, o mesmo é dizer, de fuga a uma realidade de que nem queremos ouvir palavra. Se Rubenfeld se aventurar de novo, sou bem capaz de me aventurar também, e lê-lo. Não lhe resta inteligência e mestria, como não lhe sobre pedantismo como tantos de que nem penso ler uma só linha e são intocáveis da nossa praça. Fazem-me sono e nada me acrescentam, juro. Um mero jogo de palavras, sem qualquer história (pode fazer-se uma sinfonia sem desenvolvimento do tema, não me parece, mas há quem publique letras nessa insistência, nada desenvolvem, nada nos deixam, após a última página) ou uma mania saloia por um estilo de desobediência aos cânones da gramática, apenas me desiludem, nem chegam a irritar-me. Passo melhores horas com um estilo como o deste autor, do que o de alguém que começa numa descrição de uma janela falante, ou de um louco que urina na sopa, ou da pesporrência de ideias políticas gastas e desgastantes, dos sempre resistentes anti-fascistas. Esta novena pela luta anti-fascista já me encheu e transbordou a paciência, mas ainda dá prémios literários. Uma maçada.

Acho que pode ler, quem gostar de uma história bem contada, algo policial, algo psico-thriller.