O Capital no Século XXI

O Capital no século XXI, Piketty

Thomas Piketty conseguiu uma bela proeza com a publicação do seu “O Capital no século XXI”. Um sucesso literário impressionante, para um livro sobre economia. E um título que não deixa margem para qualquer dúvida, pretendeu “agarrar o touro pelos cornos” ao associar a sua obra ao “Capital” de Karl Marx. Mas é bem mais do que isso. Deve ter escolhido bem o título da sua obra, de profunda análise das economias, por um período muito alargado, de uma forma inovadora, pelo menos para divulgação em grandes meios, e fora do ambiente científico puro. Imagino que muitos dos nossos políticos, os que “gostam” de se dizer de “direita”, por considerarem (exagero, não se trata de consideração alguma, pois isso pressuporia uma reflexão que, na verdade, nem chega a existir numas certas cabeças, pouco, muito pouco pensantes) que ser dessa área política (que também pretendem seja social, o que os transforma em quase ridículos), é uma coisa tipo de “bom tom”, fica bem, parece bem. Por mais incrível que pareça ainda há por aí demasiada gente que anda de queixo levantado, não por um orgulho em serem intelectualmente superiores, e assim de destacarem numa sociedade de anti-intelectuais ou seres pensantes, mas apenas porque julgam ganhar estatuto, que de outra forma não têm mérito para tal, como se o queixo e nariz acima a obedecer a uma linha oblíqua e não horizontal, lhes elevasse o cérebro, na mesma proporção.

Considerações à parte, mas irresistíveis, pelo que calculo de complexos de estúpida e apenas suposta superioridade, a obra de Piketty merece mesmo uma leitura. Pelo menos por quem se preocupe em entender o que nos tem acontecido desde o Século XIX, ou mesmo desde a Revolução Francesa e, mais tarde, Revolução Industrial. E, pelo Século XX, o esforço de entendimento ainda terá de ser maior, para andarmos hoje, no início deste XXI ainda a tentar perceber o que se passa. O que se passa com a dinâmica da concentração do Capital, a acumulação de riqueza, por uma percentagem cada vez mais pequena, face à criação de riqueza pelo mundo, com as consequentes desigualdades, de vária natureza, ordem e grandeza, hoje o problema que vai tornando insolúveis os outros todos: os problemas de solução para o limitado crescimento de economias estagnadas, e do progressivo empobrecimento das populações.

Uma obra destas, independentemente de ter sido escrita por um autor, economista e investigador, associado a uma “esquerda” de elite, francesa, europeia, deve ser lida com o desprendimento que alguém, também intelectualmente livre se achar e conseguir. Ficam livres de o fazer todos os que se prendem e cultivam os complexos que o nariz erguido lhes dá. Uns tristes que um dia poderão sentir o peso da sua leviana e ligeira irresponsabilidade. Os assuntos da distribuição da riqueza, da sua excessiva concentração, da criação e acentuação de desigualdades, e do progressivo empobrecimento de populações são demasiado sérios e prendem-se com as barreiras ao real desenvolvimento das sociedades e das economias.

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