Karl Ove Knausgaard: A minha luta

Knausgaard segue a sua escrita num ritmo coordenado pelo do seu pensamento. Como se se sentisse cada palavra a ser produzida, ao ritmo da passada da sua vida. Pulsante. A sua escrita reflecte um pensamento, e muito sentimento, eminentemente pessoal. A sermos crentes, e ele nos levará a essa fé, estou certo, é impressionante a memória que reservou dos seus dias de jovem e criança. Não de impressões gerais e de uma nebulosa recordação, mas de locais, objectos, expressões das pessoas, e dos próprios pensamentos, trinta anos após, ou antes.

Mas é um prazer ler uma escrita eloquente e rica. Um pensamento culto e que parece vacilar entre lucidez e dúvida filosófica. Sentimos-nos a passear pelo tempo. E nos espaços a que os seus passos nos conduzem. Passamos pelas sombras e luzes de Karl Ove, quase entrando na sua memória, um monumento à mente humana.

Este género literário nunca me havia cativado. Prefiro viajar entre ensaios e histórias ficcionadas. A realidade, nua, da vida de um escritor nunca me agarrou. Mas desta vez, rendo-me a esta qualidade superior, liderado por uma inteligência descritiva incomparável.

Vou seguindo lentamente, entre outras leituras várias, desfrutando. Acompanhando cada pisar de cada folha no passeio de uma rua, cada pensamento que salta a esse ritmo, doloroso e realista, mas corajoso.

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Karl Ove Knausgaard: o tempo requer resistência

“A Minha Luta” de Karl Ove Knausgaard (Editora Relógio D’Água, Dezembro 2014). Um Norueguês que se meteu a escrever uma autobiografia simplesmente fantástica, inteligente, com uma qualidade literária, uma linguagem simples mas filosófica profunda e arrepiante. Uma Obra grandiosa, à moda de Proust e da sua gigantesca “Em busca do Tempo Perdido” (que achei entediante, e só li uma pequena parte…confesso a minha limitação).

Knausgaard Vol1

Knausgaard conseguirá, no que a mim me toca, agarrar-me a uma autobiografia, género que não costumo apreciar. A sua escrita é exactamente “o meu género”, confessadamente intimista, com imensas ideias novas sobre a percepção do mundo, seu e dos outros. Com um fundo de filosofia pessoal profundo e tocante. Nada é ligeiro nesta obra que apenas ontem iniciei e já não quero libertar dos meus dias. Publicou em 2009 o primeiro volume, publicámos por cá…cinco anos depois, após todos os outros o terem feito. Será que as nossas editoras têm noção de que certas obras nos fazem falta e parece terem-no feito toda a vida? Veremos o que mais nos traz Karl Ove, nos próximos volumes (serão seis, cerca de seis mil páginas, segundo anunciado? E quanto tempo nos deixarão suspensos pelo segundo volume e pelos restantes? Espanha publica, parece, a um ritmo de um volume a cada dois anos. Alemanha, um por ano, Itália concentrou mais de uma publicação num só ano. Suécia, igualmente).

Irei dando conta do que leio, antes de terminar, mas exactamente ao correr da leitura. Espero.

Desde já, as primeiras páginas.

“Lemos, aprendemos, experimentamos, corrigimos. Então, um dia, chegamos ao ponto em que todas as distâncias necessárias foram determinadas, todos os sistemas necessários foram estabelecidos. É aí que o tempo começa a acelerar. Já não encontra qualquer obstáculo, está tudo determinado, o tempo passa rapidamente pelas nossas vidas, os dias sucedem-se num piscar de olhos, e, antes que nos apercebamos do que está a acontecer, temos quarenta, cinquenta, sessentas anos…O sentido requer conteúdo, o conteúdo requer tempo, o tempo requer resistência.”

Algo mais impressionantemente próximo da ideia do tempo e da distância que uma análise requer, dos nossos passados, seria difícil conseguir. E algo mais belo, impossível.