Sentimentos sobre um livro, cheio deles

Os livros pulsam em boa parte ao ritmo do que que sente, e não apenas pensa, o seu autor. É, por isso mesmo, extremamente difícil, certamente injusto, elaborar uma análise sobre um livro, de um autor muito desconhecido. Não o/a conhecemos pessoalmente, nada, ou quase, sabemos do que vive, pensa e sente. Mas sabemos um tanto pelo que escreveu.

Um livro que fala, que nos denota que sente, é uma obra difícil e perigosa de nos pormos a “inventar” considerações. Mas, como tudo, somos pessoas, e pessoas, gostam de opinar, para dentro ou para fora.

Nesta obra perpassam, por quase todas as páginas, opiniões sobre as personagens, sentimentos olhados pela autora, sobre as “pessoas” que ela mesma criou. Um direito de quem faz de Deus, como todo o escritor tem de fazer. Uma prerrogativa que a todos assiste no momento de criar, escrevendo. Assim, dei por mim, em diversos momentos, a pensar sobre a consistência de uma certa forma de pensar das personagens, e da sua forma de agir, perante a época em que “viveram”. Desde já, é uma obra algo cinematográfica, com facilidade nos mostrando cenários e movimentos ao logo dos mesmos, das suas personagens. Vemos András, Klara, Ben Yakov, Ilana…e os lugares por onde andam, nesta história, enquadradas, ou nem tanto, nos tempos que antecedem a Segunda Guerra Mundial. Mas por mais de um momento me pareceram formas de ver a sua própria vida, e dos outros, pelos personagens, pouco consistente com a época. As relações amorosas de András e Klara, e a análise por eles feita sobre as mesmas, o passado de Klara, o futuro comum que perspectivam. O que Ben Yakov vai dizendo, primeiro sobre Ilana, depois o seu contrário, sobre Ilana, à face desses tempos de há mais de setenta anos. Julgo ter visto uma…visão do mundo da década de trinta do século XX, pelos olhos de Julie Orringer, com os olhos de quem vive o mundo…de hoje.

Aqui reside um desafio para quem lê, e um bom móbil para discutir uma obra entre amigos. Estas diferenças de ponto de vista, sobre quem teve e tem os seus próprios, sobre o que criou. Pode ser injusto, mas é o que é, com as falhas humanas que, no fundo, nos dão “graça”. Julgo ter visto um dos pontos fracos desta obra interessante, onde nos é dado um mundo a dois níveis, o pessoal e o global que os rodeia e onde tentam lutar e ver que lugar podem ter.

Desafio os meus amigos a lerem este livro. É fácil ter amores por uma obra assim, ou desamores. Mas o meu desafio é outro, é uma espécie de jogo, que há muito existe na tradição anglo-saxonica, com os seus clubes de leitura. Um hobby estimulante, parece-me.

Um livro é uma aventura, pequenina, ou gigantesca, dependendo do que desencadeia em nós de estímulo mental, intelectual e cultural. Um livro é um pretexto para se recriarem temas de conversa. Confesso o meu sonho de um dia poder encontrar uma espécie de clube da leitura, mesmo que online.

Estas provocações, são o que estes comentários constituem, afinal, podem servir esse objectivo, ou apenas um auto-estímulo, para escalpelizar uma obra de algum ou muito valor. São sempre falíveis, e gosto!

Embora lá, ler esta obra que até foi premiada com o Orange, em 2011. Tentemos todos perceber porque o foi, como foi entendida que se destacava de outras tantas a concurso. E, mais, o que nos diz a mesma, sobre esses tempos de há setenta anos, quando a Europa enlouqueceu, o que me parece começar agora a repetir-se.

A traição de Munique

Outubro de 1938 (um ano antes da invasão da Polónia, que marcou o início da Segunda Guerra Mundial), Hitler invadiu a Sudetenland, após a conferência de Munique, na qual participaram França, Inglaterra, Alemanha e Itália, tidas como as potências europeias que contavam. A Checoslováquia, cuja região limítrofe da Morávia e Boémia eram o assunto da reunião, não foi convidada. Ao acordo de Munique, os checos chamaram Traição de Munique, ou Munich Diktat.

Hitler acordou (impôs e França e Inglaterra aceitaram, Itália anuía sempre a Hitler) que tomaria posição na Boémia, de cujas franjas fronteiriças apelidava de Sudetenland, e de que reclamava a “maioria” de falantes de alemão, razão apontada para invasão e (imagine-se coisa semelhante ao dia de hoje) abandono total de todos os bens pelos habitantes eslovacos, até à mais insignificante espiga de cereal, incluindo tudo o mais. Casa, e seus bens, alimentos e terras. A tomada de posição fora inicialmente uma espécie de colonização não militar, para em poucos meses passar a ocupação total.

Chamberlain e Deladier ripostaram nas reuniões precedentes que eram inaceitáveis as reivindicações de Hitler, contra uma nação soberana. Mas a cada reunião, recuavam, aceitavam as crescentes imposições de Hitler e regressavam ao seu país, de cabeça…erguida. Quando a reunião de Munique terminou, os líderes de França e Inglaterra regressaram exultantes, certos de que com a sua cedência, teriam obtido garantias de paz.

Nesses tempos, nenhuma nação estava preparada para a Guerra, nem económica, nem militarmente. Mas a pressão de Hitler era interna e externa, os recursos necessários obtidos por tudo o que extorquia aos judeus, e a cada região dos países que ia invadindo. Uma política imperialista que não era nova, que já a História testemunhara, com todos os grandes imperadores que sabemos. Mesmo a perseguição aos judeus, que sabemos ter-se iniciado por volta do ano 1000. E desenvolvido, doutrinariamente, com Espanha e os Reis católicos, Fernando e Isabel, e com Portugal, com Dom Manuel I. Hitler nada inventava, nada de bom. A História repetia-se, com novos autores e em distintos cenários.

O livro de Orringer retrata bem este episódio, a ansiedade deste ano antes da Guerra, as crenças e descrença no desfecho dos acontecimentos que todos sabemos.

Em Paris e Londres festejou-se nas ruas o Acordo de Munique. Os europeus estavam crentes na paz e exultavam.

Aconteceu há setenta anos, numa época em que os homens não eram assim tão diferentes dos que hoje vemos na vida pública. A mesma arrogância de um país, o mesmo de hoje, e de um outro, eterna ameaça e arrogância (Rússia, URSS à época), e eterno vencido.

Hoje há outros níveis de segurança e um tanto mais de intervenção social. Mas a ascensão de Hitler deu-se no país, à época e hoje, onde a informação, a cultura e a discussão da vida pública era um dado adquirido e uma força em si mesma. Com o beneplácito de um povo culto e participativo.

A Ponte Invisivel, de Julie Orringer

A Ponte Invisível, de Julie Norringer, Civilização Editora, 2011.

A Ponte Invisível

Paris dois anos antes da Segunda Guerra Mundial, 1937. András, um jovem húngaro que não conseguira entrar numa Universidade em Budapeste, devido ao ambiente anti-semita que se estava a gerar pela Europa, consequência da loucura e política ameaçadora de Hitler, conhece Claire (Klara). Gera-se um romance entre ambos, com todos os ingredientes que hoje sabemos potenciais em qualquer relação onde não se julguem ver os ingredientes “perfeitos” e pressupostos expectáveis. Contratempos entre os dois, uma quase trágica e impossível relação que se vai viabilizando, numa narrativa que não nos deixa demasiado suspense, talvez por nos pretender direccionar para uma mensagem mais central e maior: a ameaça da Guerra e da tresloucura de Hitler e de uma Alemanha, reincidente nessa suposta, mas irreal, superioridade.

Um tanto romance, com temperos apropriados aos gulosos do drama de amor, um tanto de referência histórica, com pretensões de nos situar no tempo, nesse tempo difícil de Hitler, da perseguição aos judeus, da escassez e fome europeias, do roubo ao futuro, do despedaçar das famílias, ideia que trespassa um tanto pelo livros, com as constantes dúvidas de András e Klara, sobre si e sobre os seus familiares.

Narrativa clara, simples e ligeira, sem grande uso de linguagem que nos solicite mais atenção à forma, mas com uma boa capacidade de nos agarrar à mesma, pelo ritmo da mesma e sequência de acontecimentos, A Ponte Invisível é um recomendável romance, com as ditas referências históricas, que surpreenderão os pouco esclarecidos sobre a Europa sem futuro de há setenta anos, e recordarão a outros que em muitas outras épocas, outros loucos podem tomar rédeas na política e tomar de arrogância territórios que usurparão, num ambiente nem sempre de clara ameaça a gentes mais passivas ou mais optimistas. Não louvaria esta obra pela qualidade da linguagem, pela sua elaboração intelectual, mas antes pela consistência entre tema central e tema acessório, bom enquadramento de tempos, ainda que com algumas falhas, talvez propositadas e referências inerentes aos personagens criados. Leitura agradável e envolvente, um tanto compulsiva, e fonte de alguma informação relevante.

Recomendação: 7/10.

  1. Nota: próximas publicações por inerência do tema, sobre ambiente histórico da época, Segunda Guerra Mundial, relevância relativa entre países europeus, Hungria, Alemanha, França e Inglaterra; Personalidades da época (Hitler, Chamberlain, Daladier, De Gaule, Churchill, Estaline, Ribbentrop, Mussolini, Roosevelt.