Joseph Anton

Salman Rushdie foi “condenado à morte” por essa figura tenebrosa de que muitos nos lembramos, aiatola Khomeini, no dia dos namorados, 14 de Fevereiro de 1989. A Fatwa …

Começou uma nova vida nesse dia, saltando de casa em casa, deteriorando a vida familiar, sentindo-se constrangido intelectual e fisicamente. Mas não se deixando ficar refém de um medo que lhe amputasse a actividade criativa. Hoje, temos nele uma referência autêntica de luta por uma vida como homem livre. Uma luta que nada tem a ver com essas tantas vezes falsas resistências anti -fascistas, fabricadas, como alicerces de currículo político de gente triste e medíocre. Gente que não incluo no grupo dos genuínos resistentes das ditaduras. Mas para uns, só são resistentes e lutadores,e só têm mérito de respeito os lutadores anti-fascistas.

Rushdie pertence a uma classe humana à parte. Um privilegiado, com uma inteligência criativa superior. Um monstro das letras mundiais. E um exemplo de lutador pela Liberdade de expressão.

Hoje, relembro-o, por estarmos a viver se novo este medo do terror que o terror nos quer infligir.

Recomendo o último livro dele, publicado em português, para o qual escolheu o seu nome de refugiado do terror, inspirado em dois escritores que Rushdie admira, Joseph Conrad e Anton Tchekov, “Joseph Anton”.

Sobre a indiscutível qualidade, nem vale a pena discorrer, Rushdie vale por si e as suas obras, por ele. O livro é uma homenagem aos amantes da Liberdade, que só existe numa minoria dos países deste mundo. Que a loucura pseudo-religiosa pretendeu por em causa.

Leia-se Rushdie, vale a pena tentar perceber.

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Sentimentos sobre um livro, cheio deles

Os livros pulsam em boa parte ao ritmo do que que sente, e não apenas pensa, o seu autor. É, por isso mesmo, extremamente difícil, certamente injusto, elaborar uma análise sobre um livro, de um autor muito desconhecido. Não o/a conhecemos pessoalmente, nada, ou quase, sabemos do que vive, pensa e sente. Mas sabemos um tanto pelo que escreveu.

Um livro que fala, que nos denota que sente, é uma obra difícil e perigosa de nos pormos a “inventar” considerações. Mas, como tudo, somos pessoas, e pessoas, gostam de opinar, para dentro ou para fora.

Nesta obra perpassam, por quase todas as páginas, opiniões sobre as personagens, sentimentos olhados pela autora, sobre as “pessoas” que ela mesma criou. Um direito de quem faz de Deus, como todo o escritor tem de fazer. Uma prerrogativa que a todos assiste no momento de criar, escrevendo. Assim, dei por mim, em diversos momentos, a pensar sobre a consistência de uma certa forma de pensar das personagens, e da sua forma de agir, perante a época em que “viveram”. Desde já, é uma obra algo cinematográfica, com facilidade nos mostrando cenários e movimentos ao logo dos mesmos, das suas personagens. Vemos András, Klara, Ben Yakov, Ilana…e os lugares por onde andam, nesta história, enquadradas, ou nem tanto, nos tempos que antecedem a Segunda Guerra Mundial. Mas por mais de um momento me pareceram formas de ver a sua própria vida, e dos outros, pelos personagens, pouco consistente com a época. As relações amorosas de András e Klara, e a análise por eles feita sobre as mesmas, o passado de Klara, o futuro comum que perspectivam. O que Ben Yakov vai dizendo, primeiro sobre Ilana, depois o seu contrário, sobre Ilana, à face desses tempos de há mais de setenta anos. Julgo ter visto uma…visão do mundo da década de trinta do século XX, pelos olhos de Julie Orringer, com os olhos de quem vive o mundo…de hoje.

Aqui reside um desafio para quem lê, e um bom móbil para discutir uma obra entre amigos. Estas diferenças de ponto de vista, sobre quem teve e tem os seus próprios, sobre o que criou. Pode ser injusto, mas é o que é, com as falhas humanas que, no fundo, nos dão “graça”. Julgo ter visto um dos pontos fracos desta obra interessante, onde nos é dado um mundo a dois níveis, o pessoal e o global que os rodeia e onde tentam lutar e ver que lugar podem ter.

Desafio os meus amigos a lerem este livro. É fácil ter amores por uma obra assim, ou desamores. Mas o meu desafio é outro, é uma espécie de jogo, que há muito existe na tradição anglo-saxonica, com os seus clubes de leitura. Um hobby estimulante, parece-me.

Um livro é uma aventura, pequenina, ou gigantesca, dependendo do que desencadeia em nós de estímulo mental, intelectual e cultural. Um livro é um pretexto para se recriarem temas de conversa. Confesso o meu sonho de um dia poder encontrar uma espécie de clube da leitura, mesmo que online.

Estas provocações, são o que estes comentários constituem, afinal, podem servir esse objectivo, ou apenas um auto-estímulo, para escalpelizar uma obra de algum ou muito valor. São sempre falíveis, e gosto!

Embora lá, ler esta obra que até foi premiada com o Orange, em 2011. Tentemos todos perceber porque o foi, como foi entendida que se destacava de outras tantas a concurso. E, mais, o que nos diz a mesma, sobre esses tempos de há setenta anos, quando a Europa enlouqueceu, o que me parece começar agora a repetir-se.