Karl Ove Knausgaard: o tempo requer resistência

“A Minha Luta” de Karl Ove Knausgaard (Editora Relógio D’Água, Dezembro 2014). Um Norueguês que se meteu a escrever uma autobiografia simplesmente fantástica, inteligente, com uma qualidade literária, uma linguagem simples mas filosófica profunda e arrepiante. Uma Obra grandiosa, à moda de Proust e da sua gigantesca “Em busca do Tempo Perdido” (que achei entediante, e só li uma pequena parte…confesso a minha limitação).

Knausgaard Vol1

Knausgaard conseguirá, no que a mim me toca, agarrar-me a uma autobiografia, género que não costumo apreciar. A sua escrita é exactamente “o meu género”, confessadamente intimista, com imensas ideias novas sobre a percepção do mundo, seu e dos outros. Com um fundo de filosofia pessoal profundo e tocante. Nada é ligeiro nesta obra que apenas ontem iniciei e já não quero libertar dos meus dias. Publicou em 2009 o primeiro volume, publicámos por cá…cinco anos depois, após todos os outros o terem feito. Será que as nossas editoras têm noção de que certas obras nos fazem falta e parece terem-no feito toda a vida? Veremos o que mais nos traz Karl Ove, nos próximos volumes (serão seis, cerca de seis mil páginas, segundo anunciado? E quanto tempo nos deixarão suspensos pelo segundo volume e pelos restantes? Espanha publica, parece, a um ritmo de um volume a cada dois anos. Alemanha, um por ano, Itália concentrou mais de uma publicação num só ano. Suécia, igualmente).

Irei dando conta do que leio, antes de terminar, mas exactamente ao correr da leitura. Espero.

Desde já, as primeiras páginas.

“Lemos, aprendemos, experimentamos, corrigimos. Então, um dia, chegamos ao ponto em que todas as distâncias necessárias foram determinadas, todos os sistemas necessários foram estabelecidos. É aí que o tempo começa a acelerar. Já não encontra qualquer obstáculo, está tudo determinado, o tempo passa rapidamente pelas nossas vidas, os dias sucedem-se num piscar de olhos, e, antes que nos apercebamos do que está a acontecer, temos quarenta, cinquenta, sessentas anos…O sentido requer conteúdo, o conteúdo requer tempo, o tempo requer resistência.”

Algo mais impressionantemente próximo da ideia do tempo e da distância que uma análise requer, dos nossos passados, seria difícil conseguir. E algo mais belo, impossível.

Sentimentos sobre um livro, cheio deles

Os livros pulsam em boa parte ao ritmo do que que sente, e não apenas pensa, o seu autor. É, por isso mesmo, extremamente difícil, certamente injusto, elaborar uma análise sobre um livro, de um autor muito desconhecido. Não o/a conhecemos pessoalmente, nada, ou quase, sabemos do que vive, pensa e sente. Mas sabemos um tanto pelo que escreveu.

Um livro que fala, que nos denota que sente, é uma obra difícil e perigosa de nos pormos a “inventar” considerações. Mas, como tudo, somos pessoas, e pessoas, gostam de opinar, para dentro ou para fora.

Nesta obra perpassam, por quase todas as páginas, opiniões sobre as personagens, sentimentos olhados pela autora, sobre as “pessoas” que ela mesma criou. Um direito de quem faz de Deus, como todo o escritor tem de fazer. Uma prerrogativa que a todos assiste no momento de criar, escrevendo. Assim, dei por mim, em diversos momentos, a pensar sobre a consistência de uma certa forma de pensar das personagens, e da sua forma de agir, perante a época em que “viveram”. Desde já, é uma obra algo cinematográfica, com facilidade nos mostrando cenários e movimentos ao logo dos mesmos, das suas personagens. Vemos András, Klara, Ben Yakov, Ilana…e os lugares por onde andam, nesta história, enquadradas, ou nem tanto, nos tempos que antecedem a Segunda Guerra Mundial. Mas por mais de um momento me pareceram formas de ver a sua própria vida, e dos outros, pelos personagens, pouco consistente com a época. As relações amorosas de András e Klara, e a análise por eles feita sobre as mesmas, o passado de Klara, o futuro comum que perspectivam. O que Ben Yakov vai dizendo, primeiro sobre Ilana, depois o seu contrário, sobre Ilana, à face desses tempos de há mais de setenta anos. Julgo ter visto uma…visão do mundo da década de trinta do século XX, pelos olhos de Julie Orringer, com os olhos de quem vive o mundo…de hoje.

Aqui reside um desafio para quem lê, e um bom móbil para discutir uma obra entre amigos. Estas diferenças de ponto de vista, sobre quem teve e tem os seus próprios, sobre o que criou. Pode ser injusto, mas é o que é, com as falhas humanas que, no fundo, nos dão “graça”. Julgo ter visto um dos pontos fracos desta obra interessante, onde nos é dado um mundo a dois níveis, o pessoal e o global que os rodeia e onde tentam lutar e ver que lugar podem ter.

Desafio os meus amigos a lerem este livro. É fácil ter amores por uma obra assim, ou desamores. Mas o meu desafio é outro, é uma espécie de jogo, que há muito existe na tradição anglo-saxonica, com os seus clubes de leitura. Um hobby estimulante, parece-me.

Um livro é uma aventura, pequenina, ou gigantesca, dependendo do que desencadeia em nós de estímulo mental, intelectual e cultural. Um livro é um pretexto para se recriarem temas de conversa. Confesso o meu sonho de um dia poder encontrar uma espécie de clube da leitura, mesmo que online.

Estas provocações, são o que estes comentários constituem, afinal, podem servir esse objectivo, ou apenas um auto-estímulo, para escalpelizar uma obra de algum ou muito valor. São sempre falíveis, e gosto!

Embora lá, ler esta obra que até foi premiada com o Orange, em 2011. Tentemos todos perceber porque o foi, como foi entendida que se destacava de outras tantas a concurso. E, mais, o que nos diz a mesma, sobre esses tempos de há setenta anos, quando a Europa enlouqueceu, o que me parece começar agora a repetir-se.