Ferrugem americana

Nos tempos actuais, em que também se resiste, por mim uma resistência vitalícia, a uma transformação forçada, indesejada, ininteligente, arrogante, inaceitável e ilegal de muita da nossa ortografia, com o mais burro e idiota Acordo Ortográfico, inconstitucional mesmo, levando a que nos fique a boca seca e os cabelos em pé, quando se lê um bom texto nos jornais e um bom livro, há por muitos cantos desta Europa e dos Estados Unidos da América cenários, sectores e regiões vastas espelhos de uma decadência que persiste. Zonas e sectores onde outrora houve indústria rentável e prometedora, são hoje cemitérios de glórias passadas. Sabemos todos de alguém que foi vítima destas crises e desta decadência.

“Ferrugem Americana”, de Phillip Meyer, editado pela Bertrand, é um romance sobre esta sociedade decadente em transformação, e sobre a história de uma amizade e do seu valor e valores. Ferrugem é o estado em que se encontra toda uma indústria de aço, nos EUA, e das suas empresas falidas e encerradas. Ferrugem é também o estado em que se encontram as pessoas que por essas terras vivem ou sobrevivem.

É um livro de escrita original e criativa, mas lembra-nos um tanto um Steinbeck, nas suas caracterizações da resistência humana numa sociedade, ou num tempo de uma sociedade, em crise e em estado de angústia. Em tempos de depressão, económica, social e individual, sempre surgem os excessos, as atitudes descompensadas, ou irreflectidas, talvez escapatórias sem saída, para problemas sem resposta ou solução.

Este é um livro recomendável. Apesar do fundo do tema, não se trata de um manifesto político, mas de um Romance ao bom estilo americano, interrogando-se sobre si mesmo, sobre a própria ‘cultura e estilo de vida’ americanos.

Vale bem a pena ler esta quase poesia-negra, com mudanças de estilo narrativo ao longo do livro, consoante o protagonista do capítulo. Originalidade não lhe falta, mas sem cair numa prosa ilegível ou estafante, dessas que dá ataques de asma a quem nunca dela padeceu. Quero dizer, o contrário do que por cá, alguns ‘brilhantes aplaudidos’ de lixo nos vão dando. Isto é Literatura, e não lixo do muito, felizmente restrito, como o que por cá temos.

Numa das opiniões que li, no ‘Goodreads’ (http://www.goodreads.com/), alguém referia não ter entendido algumas ou muitas das frases do autor. Confesso que as procurei, para me incorporar nessa espécie de iliteracia, mas só encontrei boa escrita, poesia, um escritor a seguir em próximas obras.

A interpretação do crime

Um livro não tem de ser sempre uma obra prima, uma referência na Literatura e na Cultura.

Um dos aspectos que sempre me incomodou na crítica literária convencional, é essa insuportável mania da superioridade intelectual. Durante anos, li críticas literárias no Expresso, como li de Cinema, de Teatro, de Música. Algumas vezes imaginei que provavelmente não teria o crítico lido a mesma obra que eu, ou ouvido a mesma interpretação de uma obra musical.

Invariavelmente, comparava-os, como uma fatalidade do meu triste processo mental, muito aquém dos ditos imensos intelectuais da Crítica, com os jornalistas que nas revistas de automóveis nos deliciam com as maravilhas da indústria automóvel alemã, para no final, eu continuar a desejar ardentemente um modesto automóvel japonês. Evidentemente, sempre desconfiei da fiel crítica a um Volkswagen, ou Audi, como a um livro de Lobo Antunes, ou…qualquer outro que se inserisse nos “intocáveis” do costume, quase sempre de uma determinada ala política. E, inferiormente pensante, me deixava mergulhar num simulacro de depressão, por não me ser possível descortinar a proximidade e a inevitabildade que relaciona preferências políticas com produção literária.

Não sou fã de literaturas a quilo. De Dan Brown’s de praia. Mesmo tendo usado o dito na praia, por ser como uma salada, é fresco e engana a fome, mas deixa muito pouco.

A interpretação do crime

Jed Rubenfeld, um jurista americano (ri-me…ao lembrar-me da expressão castelhana “estado-unidense”, um fútil parêntese), elaborou uma história animada, interessante, leve, recheada de inverosímeis acontecimentos e coincidências temporais, misturando a viagem de Freud aos Estados Unidos, com alguma filosofia sobre a psicologia do mesmo, e uma história policial a correr no centro do enredo.

Não me pareceu literatura superior. Mas não me ofendeu a parca cultura, nem as pretensões escassamente literárias. Gostei, porque o li em transportes públicos, distraindo-me de odores, poluição sonora ao final de dias stressantes, diverti-me, numa palavra. E não entra pelo disparate de um milionário Dan Brown. Já desisti de me questionar porque são milionários os escritores mais fracos. Porque não é possível identificar a qualidade, pela maioria das pessoas. Ou porque para ser inquestionavelmente superior é quase forçoso ser-se impopular.

A Interpretação do Crime não é um mau livro. Não é um grande livro, nem um livro grande. É um livro bem temperado, com equilíbrio de condimentos, cozedura adequada e mata alguma fome de curiosidade e de imersão na ficção, o mesmo é dizer, de fuga a uma realidade de que nem queremos ouvir palavra. Se Rubenfeld se aventurar de novo, sou bem capaz de me aventurar também, e lê-lo. Não lhe resta inteligência e mestria, como não lhe sobre pedantismo como tantos de que nem penso ler uma só linha e são intocáveis da nossa praça. Fazem-me sono e nada me acrescentam, juro. Um mero jogo de palavras, sem qualquer história (pode fazer-se uma sinfonia sem desenvolvimento do tema, não me parece, mas há quem publique letras nessa insistência, nada desenvolvem, nada nos deixam, após a última página) ou uma mania saloia por um estilo de desobediência aos cânones da gramática, apenas me desiludem, nem chegam a irritar-me. Passo melhores horas com um estilo como o deste autor, do que o de alguém que começa numa descrição de uma janela falante, ou de um louco que urina na sopa, ou da pesporrência de ideias políticas gastas e desgastantes, dos sempre resistentes anti-fascistas. Esta novena pela luta anti-fascista já me encheu e transbordou a paciência, mas ainda dá prémios literários. Uma maçada.

Acho que pode ler, quem gostar de uma história bem contada, algo policial, algo psico-thriller.

A escrita a nu

Muitos de nós, ou todos nós, pomos um dia, a alguém, nem que apenas ao psiquiatra, a nossa vida a nu. Quando o fazemos, vivemos momentos de profunda emoção, porque nos despimos de quase tudo. Mas dizer, não é escrever.

Imaginemo-nos, por um instante, na pele de um escritor, e que nos metemos a pôr em palavras escritas grande parte da nossa vida.

Podemos fazê-lo num pequeno texto, normalmente privado apenas, ou publicá-lo num blogue pessoal. Mas a extensão, reduzida, nos limitará sempre a profundidade. Se o fizermos num caderno pessoal, ou em vários, tentando contar, para nós mesmos, ou deixar para a posteridade, dar-nos-emos conta, muito provavelmente, da dificuldade, talvez da intensa emoção, ou comoção até.

Mas publicar em livro. Publicar a verdade, embora essa possa estar decorada com ficção, embora com intentos de tornar uma nossa história assim mais editável, não será tarefa nada fácil e decisão muito complicada de assumir.

Mas assim o fez Knausgard. O primeiro volume desta autobiografia, ou deste romance autobiográfico, já nos dá bem a medida da força deste homem, como escritor e como ser humano. Os detalhes da descrição da casa da avó, como o pai dela a deixou, ao falecer, depois de lá ter vivido uns anos coma sua mãe de oitenta, são duros e difíceis de entender. De aceitar. O que lemos passou-se na Noruega, não num país qualquer de terceiro mundo, num bairro degradado. E Knausgard expõe-nos assim. E imagino o que lhe deve ter custado.

Esta obra, monumental de mais de seis mil páginas em seis volumes (um jantar com amigos pode custar ao leitor umas cem páginas) pode ter aberto um novo capítulo no mundo da escrita e dos escritores.

Lemos algo de muito profundo e já nem importa, a dada altura, a realidade ou alguma ficção que não se consiga perceber do vamos lendo. Vem de alguém que só pode viver muito intensamente. Que se desloca pela vida com um batimento muito intenso, um olhar muito observador e uma memória prodigiosa. Mas é na escrita, de uma beleza por vezes dolorosa, que está o encanto desta obra.

Ler o primeiro volume, faz-nos ansiar pela publicação do segundo. Que, em Portugal, como tudo o mais, tarda sempre demasiado. Porque tudo tarda em Portugal, país de muitas queixas e de muito poucas realizações. Se leio um autor português, leio demasiada dissimulação, como tudo é, afinal, por cá. Ou leio um exercício de escrita, um jogo de palavras de um espertinho, e quase nunca uma história bem contada. Muito raramente, uma boa história. As excepções são raras. E logo julgadas como demasiado comerciais. Até porque comercial, em Portugal, é algo deplorável, parece. Nós que nada produzimos e apenas importamos e vendemos, temos uma análise negativa e sórdida sobre o que seja comercial. Como se desejássemos que tudo nos chegasse de um Estado providencial. Nas nossas vidas pode até passar-se muito mais do que na de Knausgard, neste momento com quarenta e sete anos. A meio da vida e muito mais que uma vida bem longa para nos contar.

Se no trajecto de uma vida ainda pela metade se tem tanto para contar e da forma como faz, o que nos reserva este escritor que vem das terras do silêncio?

Esperemos pela publicação dos restantes volumes de “A minha luta”, que recomendo a todos os que queiram pesar as suas próprias vidas e perceber quanta coisa que nos acontece pode ser bem relativo.

Boa leitura!